quarta-feira, 19 de agosto de 2009

analogias na varanda I

Recosto-me na imagem do céu. A noite vai longa e nada mais que o som do vento se ouve. À minha frente, a imagem da rua é quase imperceptível; na varanda consigo ver apenas o recorte dos telhados dos prédios que se amontoam e, pouco acima estende-se o céu em meu redor. 
Deixo a cabeça cair para trás, lá em baixo pouco interessa. A esta hora talvez passasse um carro de hora a hora, um grupo de pessoas de regresso a casa ou, ainda, o velhinho que passeava o cão. Movimento...acordar. Não me interessa.
As nuvens correm rápido pelo céu, arrastam-me com elas. Arrastam mesmo. Sinto-me por instantes levitar da cadeira e seguir aquilo que grita, há muito, bem cá dentro. Longe, longe...ainda que por mera alucinação.
Distraem-me as árvores. O tilintar das folhas e os múltiplos verdes que surgem com as sombras. Rápido me recosto de novo. As nuvens ainda me prendem. Andam mais rápido agora, cobrindo por instantes as poucas estrelas que os candeeiros não conseguem ofuscar. E, ainda que apenas por segundos é como se um calafrio me corresse pelo corpo. O sustentar da respiração, mesmo que leve, o sentir que tudo o que nos apaixona fosse arrastado por grandes tempestades. Resta-nos o silêncio do instante, o inconsciente de um momento efémero e tudo aquilo que não se disse. São como farpas... mas as nuvens passam... como o tempo.

domingo, 16 de agosto de 2009

paredes de coura

[fotografia de Daniela Morgado]

apenas porque apetece sempre voltar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

s/ título.

Pergunto-me se haverá maior vazio que este de quase morrer aos poucos por não sentir. A alma não é mais transparente e as palavras que surgiriam fluídas são, agora entraves do pensamento. Quero escrever-me. Quero possuir esse espelho que outrora me reflectiria em cada letra e deixar de ser um soluço de emoções silenciadas. Que pese o tempo em meu corpo e que voltem esses devaneios insanos que me excitam e me embriagam.
Não fossem as noites infinitos caminhos sem objectivo, nem as madrugadas escassas de vontade. Assim voltaria a garra, voltaria a escrita qual prazer viciante esse de conseguirmos tocar-nos com palavras, doces carícias sob lábios solitários. Um engano para a solidão.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

shake me like a monkey.

Porque é verão e sabe bem a qualquer altura [:

segunda-feira, 29 de junho de 2009

às vezes são apenas coisas simples. caminhar à chuva, por exemplo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

s/ título II

Há dias que não apetece sair de casa. Deixamos a vida correr do lado de fora das janelas enquanto escondemos os pensamentos de quem não deixa morrer o tempo.
Há dias em que não apetece sentir. Quando a cabeça se enche com demasiadas perguntas e se prende a tudo o que não chegou a ser, restam as utopias que desenhámos em noites mais longas.Há dias em que não queremos palavras. Não mais que as que nos acostumamos a ouvir e, mesmo essas, se tornam  frias  quando  são apenas passado.Há dias em que não apetece nada.
Há dias...e dias... e horas, e minutos e segundos e tempo... esse que nos mata aos poucos.

Daniela Morgado

segunda-feira, 8 de junho de 2009

(desas)sossego.


                                                                              
escrevo na sombra do pensamento. hoje não há nada que queira realmente dizer. talvez, que este vazio que me consome e me mata, deixa o meu corpo vulnerável ao precipício do inconsciente.
magoa este vazio nas palavras, este silêncio de sensações. o tempo rasga-me o corpo e lembra-me todos os dias essa fome de uma extensão do próprio tempo, uma procura nesse pequeno universo do que é sentir. sentir é possuir, mesmo que, mais tarde, isso seja apenas uma recordação...

o olhar para a janela é uma espécie de náusea, um desconforto real de ver que lá fora continua o silêncio banal que finjo ouvir. não quero as vozes, não quero os barulhos. hoje quero deixar-me cair nesse buraco negro de não existir. 
não existisse o tempo…

[Fotografia de Daniela Morgado]

quarta-feira, 27 de maio de 2009

manhã submersa.


sonho às escuras.            um preto e branco esquisito.           vazio.


não me lembro.

[fotografia de William Mortensen] 

domingo, 24 de maio de 2009

anesthetize part 2

deixo o som guiar-me o corpo enquanto o pensamento voa para outros destinos. penso-os... mas a madrugada arde nos olhos como um aviso constante de que é hora de os pés voltarem ao chão. e a música pára. os pensamentos param, nunca deixando realmente de lá estar... levitam como noites incompletas que ficarão para outro dia.

caio sob a cama. deixo-me dormir.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

são sonhos.

desenho o caminho dos teus dedos no meu corpo. fecho os olhos e tento imaginar o seu arrastar lento na minha pele. pedir-te-ia que escrevesses com as suas viagens. "o quê?", pergunto por ti. na minha cabeça surgem mil e uma palavras que chegariam para que me entregasse ao calor do teu corpo. mas não respondo. procuro os teus olhos com os meus ainda fechados e digo-te em silêncio: "nada, deita-te comigo, apenas". Aconchego-me nesse sonho que me apaixona e abraço-te. Na minha cabeça continuam as palavras... mas não me atrevo a sussurá-las.