terça-feira, 19 de abril de 2011

You look like rain.

Segurava a sua caneta com firmeza. Como se de coisa séria se tratasse. Escrevia calmamente, como morrendo em cada palavra para dela sorver o mais pequeno sentido. Deslizava com o braço, calmamente sobre a secretária e esquecia-se do cigarro a arder no cinzeiro. Esquecia-se de tudo por instantes e balançava a caneta ao som dos pensamentos. Parava para acalmar a sofreguidão das palavras. Escrevia sobre um futuro, talvez distante. Mas à medida que os sonhos lhe enchiam as mãos a tinta parecia perder o vigor, como se com vida própria, os entendesse como perigosas possibilidades. No entanto forçou o momento, olhou o cigarro já apagado e numa analogia rebuscada, julgou-se ele mesmo o cigarro, esquecido a arder. Fez-se dono das palavras e atirou-as brutamente para cima da folha. Na sua cabeça sabia que o tema só poderia ser um: ela. Esse ser perfeito que o levara à loucura, o seu desejo permanente e proibido. Poderiam ter tido uma vida juntos, ele e ela. Poderiam mas não tiveram porque apesar de toda a paixão, não quis o tempo que eles alguma vez se possuíssem. Ele escreve-a em mentiras que ousa contar-se. Ela é apenas uma personagem na cabeça dele. Um amor proibido, daqueles que ficam para dar um aperto ao coração.


Daniela Morgado

domingo, 6 de fevereiro de 2011

entre isto e aquilo.

sinto o corpo cair. existe uma quebra ainda longa entre o tempo e o movimento já executado. tudo parece acontecer devagar, mesmo as palavras. as vozes arrastam-se pelo espaço... de repente estou dentro de mim, no meio de escuridão e poemas soltos, de saudades e mágoas de outrem, de despedidas pensadas e sonhos adiados.
quero sair, mas a vontade pesa e arrasta-me para dentro.

onde estás?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

custa fechar os olhos e ter aquela imagem apenas na minha cabeça.
tão intocável. tão distante. tão impossível.

no entanto, durmo com ela.

sábado, 15 de janeiro de 2011

presença.

fotografia de Daniela Morgado

sábado, 8 de janeiro de 2011

leva-me à exaustão pensar na distância de um pensamento a um gesto. na cobardia que há em esconder no correcto tudo aquilo que nos pulsa no corpo. e que distância tão pequena...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

sabes a chuva.

A noite sabe a chuva. Como palavras de despedida que se colam ao tempo.
Um sabor estranho que se entranha no tédio dos dias e nos deixa na penumbra de nada sentir.
Na rua os cheiros misturam-se como corpos famintos entrelaçados; mas não os sinto. A imagem que tenho perante mim parece silenciosa e vazia. Estática na verdade.
Poderia dizer, agora, qualquer coisa que iria apenas ecoar nas memórias da minha existência. Um gesto egoísta que me transforma numa alma estranha...desconhecida, perdão.
Poderia chamar-te agora... mas a noite continuaria a saber a chuva... fria e distante como lágrimas que ficam nas palavras por dizer.
Tu sabes-me a chuva.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

a chuva veio vazia. sem abraços ou beijos, nem sequer as palavras que tiram o frio do corpo. não veio mais nada que não o cintilar das gotas nas telhas ou o barulho do vento que agita as ruas. deixo-me estar. enrolo-me no cobertor como se te abraçasse e murmuro algo que gostarias de ouvir. mas a chuva veio vazia. e cá dentro são só tempestades.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

old house. cold days.


fotografia de Daniela Morgado

sábado, 20 de novembro de 2010

luna.

Quando sentires o cheiro guardado nas estórias deste livro
 saberás quantas vezes morri sem o teu regresso,
deixando que o teu sabor me ferisse os lábios vazios 
e que a tua imagem mordesse o mármore dourado pelo sol da manhã.

Quando leres as palavras que dobrei entre as páginas da minha existência, 
saberás que não guardei nenhuma estrela presa noutros abraços, 
nem nenhuma rosa murcha entre doces espinhos que
 me rasgaram a carne em lágrimas tão amargas quanto a tua ausência.

Quando a noite esconder as palavras que escorregam na geometria deste livro
 saberás que os meus dias já não são dias
e que o tempo já não se estende nas rotas do meu corpo.


Daniela Morgado